quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Capão do Diabo

– Dindouro, por que você é judeu?
– Ateu.
– Tem diferença?
– Claro. Judeu não acredita em Jesus, mas acredita em Deus. Ateu não acredita em Jesus nem em Deus.
– Pra mim, dá na mesma. Deus e Cristo são a mesma coisa. É Pai, Filho e Espírito Santo, aquela coisa, sabe?
– Sei. Mas para um judeu não é. Jesus é uma coisa e Deus é outra. Jesus era judeu.
– Era não.
– Procura na sua Bíblia que você vai ver.
– Era não. Escuta. É verdade que você já encontrou o Coisa-ruim?
– Não. Não é.
Tenham paciência com o Dindouro. Ele é daqueles que nunca gostou de ser contrariado. Ainda mais na sua fé de ateu. Assumir ter encontrado o Demônio iria abalar um pouco a sua crença de que o Demo não existe.
– Tanto disse que Deus não existe, que atraiu o Chifrudo para o lado dele.
– Ele tem parte com o Malvado. Isso sim. Por isso fala essas coisas.
Quando foi desvelado que o Dindouro havia encontrado o Pé-cascudo ninguém achou muito estranho. Afinal:
– Viu? Isso é bem feito para ele. Fica falando mal de Deus. Dessa vez, eu quero ver.
Embora seja coisa conhecida e sabida de todos, o Dindouro dissimula bem: nega e desconversa quando o assunto vem à baila. O azar dele é que dessa vez teve testemunha.
– Fosse uma, vá lá. Podia ser conversa. Mas duas.
Desse modo, são também duas as versões: uma é do Dindouro. Quer dizer, uma é de quem ouviu o Dindouro contando para alguém. Outra é a versão da testemunha (que pediu para não ser revelada) que espreitou o encontro. A coisa aconteceu mais ou menos assim:
Existe aqui na região um lugar conhecido como Capão do Diabo. O nome é por causa Dele que sobe dos infernos e vai ali para buscar as oferendas que "os seus" deixaram. Ninguém passa lá por volta de meia noite, que é a hora maldita. Porque se o Canhoto encontra um vivente no caminho arranca dele o espírito e o leva para a danação eterna.
O ocorrido se deu num dia em que o Dindouro teve um compromisso particular com uma dona casada lá em Brejo do Antão. Por um azar dos diabos, ele foi pego no durante. O Dindouro, que não é trouxa, tratou de montar num cavalo qualquer e sair assim mesmo completamente peladão em disparada. O marido saiu na sua carreira dele atirando. Sem ter tempo nem escolha, só restou ao Dindouro se embrenhar pelo Capão do Diabo. Ainda não era meia noite, mas como dizem por aqui: "um azar nunca vem sozinho". Não é que, logo nesse dia, o Cão-miúdo chegara mais cedo.
– Opa! Que moda é essa agora, filhote. É promessa ou aposta?
Não sei quem ficou mais surpreso se o Belzebu ou o Dindouro. Afinal, dar de cara com o Bode-preto assim é algo bem fora do normal.
– Eu também já vi.
– Quem?
– Ele.
– O Capeta?
- É.
– Ah, mentira.
– Mentiroso.
Por sua vez, emergir do submundo e encontrar um macho nu em cima de um cavalo é bem mais raro.
– Raro por quê? Ora. Satanás é o Grão-tinhoso, e já deve ter visto de tudo. E se ele já viu tudo, já deve ter visto muito elemento pelado em cima de cavalo branco.
Primeiramente, eu nunca disse que o cavalo era branco. Depois a história que eu sei é essa. Quem me contou falou que o Capa-verde ficou muito surpreso ao ver ali na sua frente um uma variante barbada da Lady Godiva. A versão menos confiável diz que o Dindouro sacou a arma e deu dois tiros no Excomungado, que evaporou numa nuvem de enxofre enquanto soltava uma gargalhada macabra. A outra versão diz que o Dindouro caiu de joelhos e implorou perdão ao menino Jesus e começou a orar e prometeu que dali em diante passaria a ir a igreja todos os dias e se tornaria um cristão exemplar.
– Nenhuma das duas histórias é verdadeira, mas no meu caso a primeira hipótese é mais provável. Mesmo eu não tendo arma e estando nu.
Mas o Cramulhano, em vez de ficar zangado ou amedrontado pelas orações, tomou foi simpatia do Dindouro..
– Pode parar, meu amigo. Pára essa rezadeira brava. Comigo você tem cartaz. É dos meus. Olha só, como você até hoje foi o único que veio aqui assim de peito aberto (e até mais), vou fazer assim: peça um desejo que eu realizo. Pode pedir qualquer coisa.
O Diacho fez ao Dindouro a mesma proposta que fez ao Nosso Senhor, quando O tentou no deserto. Mas como o Dindouro não tem firmeza, nem sabedoria de um Cristo, caiu na tentação de Lúcifer.
Sem nem parar para pensar disse que naquele momento o que mais queria era poder ficar invisível. Essa é a razão de o Dindouro ter hoje o dom de se tornar invisível.
– Por isso que ninguém viu o camarada chegar cavalgando desnudo pela cidade e entrar na sua pensão.
– Está explicado. Tudo se encaixa.
Bom, coitado daquele marido traído. Hoje, o Dindouro nem espera mais ele sair. Toma-lhe a mulher com ele ali deitado na mesma cama. Mas situação está igualmente difícil para todos os maridos da cidade, que ficam sempre alertas e suspeitosos de alguma coisa; sempre desconfiados das esposas. Afinal, o Dindouro sempre foi dado a mulheres que por sua vez já o achavam boa pinta. Invisível, agora, é um perigo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Como forjar a verdade

Há diversos modos de se refutar uma questão filosófica. Posso dizer que eu já usei o mais estúpido deles. Obviamente (e felizmente), o cenário dessa discussão foi um bar no Bixiga em São Paulo, em meados dos anos 1990. O meu amigo dizia que acreditava na existência de uma verdade absoluta, e eu discordava dele. Na falta de bagagem de ambos, meu amigo resolveu que iria demonstrar a existência de uma verdade absoluta. Ele tinha um copo de uísque nas mãos e saiu-se com essa: "É uma verdade absoluta que vou beber deste uísque que está neste copo". Mais do que depressa, eu me adiantei e coloquei a mão sobre a boca do copo. Ele não teve dúvidas, tascou uma mordida na minha mão até que eu a retirasse do caminho, daí bebeu todo o uísque que havia. E foi assim, de uma maneira nem um pouco ortodoxa que meu amigo provou a existência de uma verdade absoluta.
Entendam que o que meu amigo defendia estava ligado ao essencialismo de Platão e à concepção referencial da linguagem de Santo Agostinho. Ele queria provar a existência de uma entidade metafísica, e não à existência da palavra verdade usada no cotidiano. E esse havia sido o nosso embate. Essa questão é portanto diferente da do meu aluno que via na existência do acaso uma afronta aos desmandos da sua divindade.
Hoje, sei que a última coisa que se deve fazer é refutar uma questão filosófica atirando-se sobre ela. Além disso, é muito fácil refutar a questão "É uma verdade absoluta que vou beber deste uísque que está neste copo" sem tomar uma mordida.
Há algumas formas bem ordinárias como: dizer que por não ter dito exatamente quando e nem exatamente o quanto do uísque beberia, a sentença "É uma verdade absoluta que vou beber deste uísque que está neste copo" não pode ser verificada em absoluto e por isso não tem validade como verdade absoluta. Ou mesmo que ele tivesse dito: Das 23 horas e 30 minutos e 12 segundos até as 23 horas e 31 minutos e 1 segundo, eu estarei bebendo 15 ml do uísque que está localizado neste copo." Ou suponhamos ainda que ele incluísse coordenadas exatas para a sua posição e a posição do copo e tudo mais. Mesmo assim o meu amigo falharia em sua tentativa de provar a existência, do ponto de vista filosófico, de uma verdade absoluta. Por que? Porque eu poderia simplesmente passar a exigir mais e mais detalhes que iriam além dos milionésimos de segundo e dos nanolitros. Até que se esgotassem as unidades de medida; quando poderíamos dizer: "Está vendo, não existem unidades de medida suficientes para atestarmos uma verdade absoluta."
Mas eu prefiro não ir por este caminho. Prefiro apenas dizer que a pergunta "Existe uma verdade absoluta?" é equivocada, e possível somente devido ao mau uso da gramática da palavra verdade.
Cotidianamente usamos a palavra verdade diversas vezes sem que ela nos cause nenhuma cãibra mental. E raramente temos dúvidas de como usá-la.
Compreendemos inclusive os diversos usos que podemos dar a palavras como "verdade".
Deixe-me dar alguns exemplos:
* "A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela". Max Frisch
* "A verdade brotará da terra, e a justiça olhará desde os céus". Salmos 85:11
Ou, ainda: imaginemos uma situação em que alguém esteja contando algo a uma pessoa, e uma terceira pessoa para reafirmar o que está sendo dito, profira a seguinte frase: "O que ele fala é verdade". Então? Quem melhor usou a palavra verdade?
Não vamos perder nosso tempo para tentar responder a essa questão. Não se pode dizer que exista um melhor uso para a palavra verdade, já que todos os usos servem perfeitamente para dizer aquilo que o falante quer. Em cada um dos casos citados somos capazes de compreender a gramática da palavra "verdade", e, dessa forma, estamos aptos a entender o que foi dito nas três sentenças. E todas são diferentes de usos como "A verdade come cenouras" ou "A verdade rasga todavia", que são usos notadamente equivocados para "verdade".
Desse modo a questão "É uma verdade absoluta que vou beber este uísque que está no meu copo" não está diretamente ligada a questão: "Existe a verdade absoluta?"
No primeiro caso temos um exemplo do uso corriqueiro para verdade (ainda que absoluta), na outra temos uma questão filosófica em que estamos atribuindo características adicionais para verdade.
Assim, eu refutaria não a questão "Existe uma verdade absoluta" (o que pretendo fazer em outro post aqui no "O Gramático". Mas sim o uso de uma "palavra" no uso cotidiano para sustentar a existência de uma entidade metafísica.

* A foto foi tirada por mim embaixo do Elevado Costa & Silva (Minhocão), à altura da Rua General Jardim. Desconheço a autoria do grafite.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O fantasma do abismo

Dizem que morrera asfixiado. Ninguém se lembra muito bem da data. Mas alguns concordam que deve ter sido entre 1932 e 1935, provavelmente maio ou junho – porque chovia muito e fazia frio. Do nome, entretanto, todos se lembram muito bem: Douglas Macário. Era casado, sem filhos e morava na parte baixa da cidade. O que fazia no abismo? Ninguém nunca soube. Sabe-se que a sua viúva – durante o período em que ainda ficou na cidade – todo ano colocava flores na beirada do abismo; onde se supunha estar o cadáver do seu marido. Supunha-se, evidentemente, porque Douglas Macário jamais fora encontrado. Quando houve o desabamento, consideraram perigoso ir até lá retirar o cadáver. Além disso, dadas as proporções do acidente, nunca se cogitou a hipótese de Macário estar vivo. Por mais que tenha sobrevivido à queda (e pelo que dizem, o fez), o deslizamento que o soterrou fatalmente o matara. A esposa (há quem diga que seu nome era Dora outros que era Áurea) aos poucos foi sumindo. Os anos se passaram e só a viam uma vez por semana nas missas de domingo. Era vista, porém nunca notada. Até que foi definitivamente esquecida.
Só se lembraram dela, quando pela primeira vez o fantasma do marido foi visto vagando nas proximidades do abismo. Um jovem que voltava tarde da casa de sua noiva resolveu esticar um pouco a cavalgada e se perdeu. Ao encontrar o abismo, passou a margeá-lo para achar a ponte e por conseqüência a estrada. Topou com um homem sujo de terra que vagava por ali. Quando cruzaram os olhares, viu-se que no lugar dos olhos havia apenas dois buracos cheios de terra. O peão correu o mais que pode, quase caiu do cavalo direto no abismo. No dia seguinte, descreveu a cena para seus amigos na praça central. Foi Otacílio que se lembrou de Macário.
– É Macário.
- Quem?
- Macário.
- Que Macário?
E não é que a descrição batia com o homem com terra nos olhos? Quando foram informar à senhora Macário (Dora ou Áurea), foram informados pela ex-vizinha de que ela havia se mudado para outra cidade.
- E agora?
- Bom, mas mudou-se para onde.
- Até onde sei, foi morar com uns parentes.
- Mas onde?
De factual, não se tinha mais nada sobre a viúva; a não ser especulações sobre certo amante equatoriano que a levara para sua terra. Ou de que havia se tornado beata em Nova Fronteira.
– Vou lá no abismo à noite perguntar ao fantasma o que ele quer e por que ele voltou do além.
Na primeira noite, como havia trabalhado o dia todo e ainda tinha muito trabalho para o dia seguinte, o coitado do Hermes não pôde ir. Jurou que iria na segunda-feira, mas se esqueceu e saiu com os amigos para uma bebedeira e nunca mais tocou no assunto.
O Newtinho, que era kardecista, conversava com sua finada mãe todas as sextas-feiras no "centro". Ele disse que a mãe havia sabido por outro espírito que o Macário ainda "não sabia que estava morto" e por isso continuava vagando por aí. A falecida mãe, segundo o Newtinho, pediu orações para que o Macário recebesse ajuda espiritual para perceber que estava morto. Havia ainda o risco de ele ser obsedado por uns espíritos que gostam de ficar obsedando outros. Mas ninguém deu muita importância, porque logo depois o fantasma foi visto mais uma vez. Ele estava sentado no beiral de uma janela em frente a igreja da matriz. Quem o viu foi justamente o Dindouro. Logo ele. Nunca acreditou em nada, ateuzão das antigas, deu de cara com a alma penada do pobre Macário. O Dindouro sempre foi um camarada muito difícil, e nunca admitiu ou confirmou que vira o fantasma.
– Isso é história desse povo que não tem mais o que fazer. Além do mais, fantasma não existe.
Mas dizem que o Dindouro apareceu naquela noite na pensão onde morava branco igual leite de virgem, falando que vira a assombração. Contaram que o Dindou teve a seguinte conversa com Macário:
– Dindouro.
– Quem é?
– Sou eu, Macário.
– Macário?
– Sim. Eu quero que peçam para o Padre Antônio rezar a minha missa de sétimo dia.
O Dindouro, vendo tratar-se de coisa ruim, sacou o revolver e disparou dois tiros contra a alma do soterrado.
– Mentira! Viram? Eu nem revolver tenho.
As balas passaram direto pelo espectro que desapareceu depois de soltar uma gargalhada.
A quem diga que o diálogo foi outro, e que o fantasma pedia para salvar a sua esposa que estava prisioneira em uma caravana de ciganos. Mas como o Dindouro se recusa a falar no assunto e nega o ocorrido, nunca saberemos o que o fantasma de Macário quis de verdade com a sua última aparição.
O que ninguém sabia mesmo era quem seria esse tal de Padre Antônio. É bem provável que ele se referia ao Padre André, já que estava de frente da Matriz e o padre de lá é o André.
– Já houve um Padre Antônio aqui na cidade?
– Muito tempo atrás teve um; mas acho que o nome não era Antônio, não.
– Então, ou ele trocou o nome do padre ou o Dindouro ouviu errado.
– Tem certeza que ele falou Antônio, Dindouro?
– Ora, vá para a puta que te pariu!
No fim, resolveram perguntar à mãe do Newtinho que era naquele momento a pessoa mais próxima do finado fantasma.
– Ela mandou falar que um espírito de luz acabou resgatando Macário do Umbral. Agora ele vive feliz instalado em um subúrbio de uma cidade espiritual qualquer que não me lembro o nome. Tem até uma namorada lá. Ele agradece as orações de todos.
– Mas e da missa? Ela não falou nada?
Na ausência de informações concretas, foram pedir ao Padre André que rezasse, por fim, a tal missa de sétimo dia.
– Como é que eu posso rezar uma missa de sétimo dia para uma pessoa que já morreu há não sei quantos anos?
– Mas é a última vontade do falecido, Padre. Não pode contrariar.
– Vamos fazer assim. Na próxima missa de defuntos eu incluo o nome do Macário. Está bom assim?
– Ele falou sétimo dia.
Alguém se lembrou que Antônio, na verdade, era o nome do chefe de terreiro local: Pai Antônio de Logun Ede.
– O Macário era mesmo meio macumbeiro.
– O que significa Macário? É alguma coisa a ver com macumba, não é? Vai ver ele falou pai Antônio.
– E pai-de-santo reza missa?
– Mais ou menos.
No fim, por causa da comoção popular em torno do fantasma do abismo – como ficou conhecido o nosso caro Macário na ocasião –, seu nome foi incluído nas preces da missa de defuntos e deram um dinheirinho para o pai Antônio fazer uma oferenda (ou aquelas coisas que se faz em terreiro), mas não verificaram se ele fez mesmo.
Todos acham que o finado ficou muito feliz, porque foi logo depois disso que Macário realizou o seu primeiro milagre.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Retrato do acaso como uma divindade

Um dia um de meus antigos alunos - um dos poucos admiráveis, por sinal – tentou me explicar a sua relação com a divindade a quem devotava sua fé. Ele dizia que não acreditava na existência do acaso. Segundo ele tudo o que existia ou acontecia fazia parte dos planos dessa divindade; e por mais trágicos que parecessem os seus desmandos, tudo sempre conspirava para um bem maior. Lembro-me que na ocasião ele chegou a dizer que "o acaso não existia". Eu o alertei para o risco de se pensar daquela forma (principalmente quando se crê em uma divindade criadora como a dele); já que na ausência do acaso, ele teria de procurar razões para todos e quaisquer elementos e eventos ad infinitum.
Decidi não prolongar a discussão por certo pudor pelo fato de que esse aluno acabara de sofrer um acidente que o deixara paralítico para o resto de sua vida. Além disso, me parecia cruel, num momento como aquele, questionar os fundamentos da fé de uma pessoa na sua condição. Entretanto, esse evento nunca me saiu da cabeça e não sei por que razão me retorna com freqüência. E hoje durante o meu banho matinal essa lembrança me ocorreu novamente. Resolvi, então, colocar aqui no "O Gramático", minha refutação àquela tese de meu ex-aluno.
De certo modo, a confusão que existe na sentença "o acaso não existe" é perceptível. O termo ou a palavra "acaso" existe; somos capazes de compreender o que uma pessoa quer dizer quando nos fala que "nos encontrou por acaso", por exemplo. Contudo, ficamos desconfortáveis quando deslocamos a palavra de seu uso cotidiano e olhamos para ela como se pudesse existir como um evento ou objeto isoladamente. Essa perplexidade decorre talvez de não usarmos de modo adequado a gramática da palavra "acaso".
Eu também não acredito na existência do "acaso" como entidade metafísica que se opõe à existência de uma divindade caprichosa como aquela em que meu aluno acreditava.
Pensar assim nos coloca diante do velho problema de encontrar um substantivo ao qual queremos atribuir-lhe características comuns de outros substantivos, como, por exemplo, "aquela pêra existe"; desse modo "aquele acaso existe". Voltemos à frase "nos encontrou por acaso", aqui vemos que o acaso marca uma ocorrência um "encontro". Algo que acontece e não algo que "existe".
Vamos imaginar que você olhe para um determinado objeto sobre a sua mesa e reflita sobre a existência da queda desse objeto. Ele não está em queda, mas ao empurrá-lo para fora de sua mesa, eis que ela ocorre. Então podemos concluir que ela existe. Mas você olha novamente para o objeto agora, no chão de sua sala, e novamente ele não está em queda.
O dilema do meu ex-aluno estava no uso impróprio da gramática da palavra "acaso". Ao atribuir-lhe uma existência (ou inexistência), ele cometeu um deslize equivalente ao de se atribuir um peso (ou uma cor) a uma nota musical, por exemplo. Como dizem: não é porque algumas coisas foram criadas, que posso inferir que "todas" as coisas foram "criadas", do mesmo modo, existência é uma característica atribuída a algumas coisas e que não necessariamente se aplica a outras.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O urubu louco

Em um dos dias em que saí de casa para brincar na rua em Estreito, minha mãe me avisou:
– Cuidado que tem um urubu louco por aí atacando as pessoas.
– O que é um urubu louco?
– Acho que foram os inseticidas das plantações que deixaram ele louco.
Por via das dúvidas nesse dia permaneci em casa. Embora minha preferência sempre fora me divertir na rua, havia coisas que podiam ser feitas em casa também. Toda criança sabe (ao menos naqueles tempos, sabia) que deve se aventurar fora de casa.
Nos anos 1970, o lar era um ambiente inóspito para as crianças, nada muito bom podia ser feito em casa: a tevê tinha poucos canais e pouco da programação era destinada a crianças, não havia muitos brinquedos indoor (como autoramas e videogames), nem videocassetes e variantes. Desse modo, ter relutado por dois dias em sair de casa foi suficiente para me sentir o verdadeiro Edmond Dantès.
Algumas vezes, saí de casa morrendo de medo de ser alvo do tal urubu louco. Além disso, temia pelo meu pai que tinha de sair todos os dias para trabalhar e voltava a pé do ponto de ônibus. Eu não tinha noção do estrago que um bicho desses poderia provocar a uma pessoa. Mas tinha certeza de que seria algo doloroso. E se existe uma coisa que eu sempre tive medo foi de sentir dor.
Passavam se os dias e eu comecei a desconfiar que a história do tal urubu louco não passava de invenção da minha mãe e do meu pai para evitar que eu fugisse de casa. Naqueles tempos, eu era o fujão: andava por todos os lados, descia dentro de redes de esgoto, entrava em dutos de canalização, buracos e construções abandonadas, ia para lugares bem longínquos, e por ter menos de 6 anos, meus pais se preocuparam muito com essa minha vocação para o nomadismo.
Do urubu louco, até então, nunca havia visto nada, exceto vultos e partes do corpo em cima de árvores, atrás de telhados e muros (que nunca soube se era a minha imaginação fertilizada pelas histórias que ouvia). Quando isso acontecia, eu me via possuído pelo medo e corria o mais desesperado que podia para minha casa. Corria e me fechava dentro de meu guarda-roupa. Achava que ali, dentro de casa, dentro do guarda-roupa eu estava seguro. Aí pensava: Será que ele não entrou aqui? Escondeu-se aqui dentro? Uma vez, em meu esconderijo na completa escuridão pude perceber os olhos do urubu voltados para mim. O medo foi tão grande que mal pude me mexer e fiquei ali paralisado olhando dentro da escuridão até criar coragem para saltar repentinamente para fora e constatar que nada havia em meu guarda roupa além de casacos e brinquedos.
Eu queria e não queria ver o urubu. Seria legal dizer que o havia visto nas conversas sobre o tema. Seria melhor ainda dizer que fora perseguido e que havia escapado destemidamente. Mas quando falavam do urubu eu só me recolhia de medo e nada dizia.
Por causa do bicho maluco assombrando as redondezas, tinha de receber minhas duas amigas em casa, Claudinha e Denise nosso assunto era sempre o terrível urubu louco e medo que compartilhávamos de ser atacados. Acabei abandonado a clausura poucos dias depois. Fui ver Denise. Ela me encontrou nos fundos de sua casa perto de um descampado. ]
– E o urubu?
– Não tem perigo, ele está atrás da casa.
Foram esses os primeiros passos fora de casa desde a notícia dos ataques dessa criatura terrível. Bicamos, mas eu, tenso, não relaxava nunca.
– Acho que vou para casa.
Com medo, meu primo Sandro sempre que me visitava evitava lugares ao ar livre. E foi em uma de suas visitas, logo que eles iriam embora – ele e minha tia – que eu pude ver por alguns minutos o ser que me amedrontou aqueles dias da minha infância. Ele apareceu em pleno vou e começou a bicar a tela do mosquiteiro do quarto da minha mãe. Ele era bem menor do que eu imaginara, mas nem um pouco menos assustador. Contudo, me senti seguro ao lado de minha mãe, minha tia e meu primo ante a visão do urubu maluco e que bicava sem sucesso a tela do mosquiteiro. Não me lembro de quanto isso durou ou o que o fez ir embora, só me lembro do pavor de sair, e do meu primo e sua mãe terem esticado a permanência em casa.
No dia seguinte recebi a notícia de que ele havia sido capturado e solto em outro lugar. Então, aos poucos pude retomar a minha coragem me dedicar às minhas fugas.
Eu sempre me questionei se de fato essa lembrança ser ou não real. Para mim, é muito real. Mas absolutamente ninguém com quem conversei se lembra desse fato.
Hoje, pensando sobre ele, me parece pouco plausível e ainda pouco real, mas em minhas lembranças mais antigas essa história é bem viva.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Rosa e Azul

Na minha mais longínqua infância, morei em um minúsculo lugarejo chamado Estreito, um distrito da cidade de Pedregulho no interior de São Paulo. Lá moravam apenas os funcionários da estatal Furnas Centrais Elétricas que trabalhavam na usina construída ali no fim dos anos 1960. Para ser exato, construída no estreito do Rio Grande.

Essa pequena vila tinha uma estrutura bem pequena, mas suficiente para comportar os funcionários da usina e suas famílias. O lugar se resumia a uma centena de casas, um clube, um hotel, um cinema, um açougue, um mercado, um ambulatório, uma igreja, um aeroporto, um banco, uma butique. Vendia-se o básico. Se você quisesse coisas mais complexas tinha de viajar a Franca, a mais ou menos 70 quilômetros.

Pelos meus cálculos, morei nesse lugar dos 0 aos 4 anos. Lá estão as minhas lembranças mais antigas e, por essa razão, muito preciosas. Nunca converso muito com meus pais sobre esse período, por isso imagino que grande parte do que me lembro tenha saído de minhas memórias mesmo.

A casa, salvo engano, tinha três quartos (sendo um de empregada), sala, dois banheiros (um de empregada), cozinha, copa conjugada a uma área de serviço, onde ficavam o tanque de lavar roupas, uma mesa onde fazíamos nossas refeições e a máquina de costuras da minha mãe. Lembro-me também de um pequeno forninho elétrico com uma resistência incandescente, de uma mesa na cozinha. A sala tinha, se é que me lembro, uma reprodução do quadro As Meninas Cahen d’Anvers de Renoir. Havia ainda uma estante de livros (com poucos livros), um sofá e uma poltrona de couro marrom e uma tevê preto-e-branco de 16 polegadas onde eu assistia à Pantera Cor-de-Rosa e Viagem ao Fundo do Mar. Os quartos tinham cortinas com forro. O chão da cozinha era de ladrilhos vermelhos e pequenos, enquanto o da sala e dos quartos era de tacos de uma cor bem escura.

Do lado direito da casa havia uma grande árvore onde meu pai dependurara um balanço. Eu que naqueles tempos pensava que os meus tios e meu avô – que eram mecânicos de automóveis – fossem uma espécie de professor Pardal (Gyro Gearloose), sonhava com alguma engenhoca que pudesse me fazer balançar sem que existisse alguém me empurrando.

A maior conquista daquele período foi aprender a falar. Comecei com menos de um ano e não parei mais. Era a verdadeira matraca, falava com tudo e com todos (o tempo inteiro): no supermercado, no ônibus em casa. Não sei como meus pais me suportavam. Fora isso, eu gostava de utilizar intermináveis "porquês" para tudo e qualquer coisa.
Não sei como depois de ter dado à luz uma maritaca fujona, indomável e intratável como eu (eu era quase um Fox Terrier), meus pais ainda resolveram ter mais filhos. Felizmente, para mim inclusive, eles tiveram muito mais sorte com os outros dois.

Você já deve ter ouvido falar da loucura que foram os anos 70. Pois é, eu me lembro basicamente de ter tido duas amiguinhas: Claudinha e Denise. Irmãs, eu acho. Se bem que tenho impressão de que Claudinha era morena e Denise, loura. Vivíamos juntos os três, nadávamos sem roupas, tomávamos banho juntos e não queríamos nem saber de trabalho. Eu era mais ligado à Claudinha. Ela foi a primeira amizade com uma pessoa fora de minha família. Lembro-me de que ela morava na casa da esquina no quarteirão em frente ao de minha casa. Saindo de casa, virando a esquerda podia-se ver o quintal da casa dela. Havia um terreno bem amplo junto ao quintal.

É muito triste que se escapem os momentos exatos que passamos juntos e mesmo os seus traços já me escaparam. Lembro-me apenas de ela ser morena, ter cabelos cacheados. Nosso relacionamento não era lá muito paz e amor. Ao contrário, era repleto de brigas. Mas eu era bem mais esperto do que hoje; minha arma contra a opressão da mulher era a mordida. Brigávamos pelos motivos mais absurdos e mais irrelevantes, brigas feias. Nunca houve reconciliação, até porque tudo já era previamente perdoado. Eu imagino que não havia nada que pudéssemos fazer um ao outro que abalasse a nossa amizade. Éramos companheiros de absolutamente tudo, brincadeiras, traquinagens e fugas - esse o meu passatempo predileto.

Das várias coisas que eu me lembro de Claudinha, ficou um único detalhe que descobri apenas há alguns anos, numa das poucas vezes que falei com aminha mãe sobre ela. Aliás, quem se lembrava desse detalhe era ela, porque eu jamais o havia percebido. O que é quase inconcebível, já que eu era uma radiola destemperada e ela, uma pessoa tão próxima com quem eu tinha contato diário. Desse modo, foi um choque quando minha mãe me disse que Claudinha era muda.

Eduardo Gomes, o brigadeiro

Outro dia me perguntaram se eu sabia algo sobre a origem do brigadeiro (do doce, obviamente). Às vezes, eu penso que já me tornei uma espécie de Guia do Curioso ambulante, ou seja: um camarada que detém toda a sorte de conhecimentos inúteis sobre assuntos pitorescos. É engraçado como passo essa impressão (que, aliás, é absolutamente verdadeira). Todo o meu conhecimento intelectual está baseado na profundidade das amenidades ou na superficialidade das coisas realmente importantes.

Vamos ao brigadeiro. Especulando um pouco sobre a sua origem, eu comecei a pensar na sua receita:

1 lata de leite condensado
1 colher de sopa de margarina sem sal
4 colheres de sopa de chocolate em pó

Que tipo de pessoa faria algo como misturar chocolate com leite condensado e manteiga? Só poderia ser alguém querendo fazer uma bomba. Basta nesse caso bombardear as fileiras inimigas com um monte dessas coisas, que diante da impossibilidade de comer apenas um, os soldados adversários acabariam por se tornar uma massa obesa de diabéticos com as artérias entupidas de manteiga. Aí está! Deve ser essa a razão do nome.

Na verdade, não é nada disso. A criação do doce é atribuída às moçoilas do bairro paulistano Pacaembu, que resolveram fazer uma festa no intuito de angariar fundos para a campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da República em 1945. Reza a lenda que as mocinhas tinham, de fato, se encantado mais com a beleza do Brigadeiro do que com o seu discurso ou plano de governo.

O doce causou um verdadeiro frisson durante a campanha às eleições presidenciais daquele ano. Entretanto, isso não foi suficiente para o airoso e elegante Brigadeiro Eduardo Gomes derrotar o feio e atarracado General Eurico Gaspar Dutra.

Eduardo Gomes nunca foi presidente da República, mas em compensação ele é patrono da forca aérea brasileira e acabou por batizar um de nossos doces mais populares.